sábado, 2 de abril de 2011

AMOR BANDIDO



“Primeiro foi uma pontada no lado esquerdo. A dor pequena, mas que me assustou. Estava no Bar do Jordão, no Alto de Santa Izabel. Tomei um copo de cerveja com Leandro, meu amigo de infância, ao qual falei do acontecido. Ele disse: Que nada, bicho, isto é gazes. Toma um copo de cerveja que isto passa e quando chegar a casa toma um chá de boldo. E assim se foi. A tarde foi divertida. Por volta das dezoito horas, novamente a dor apareceu mais uma vez. Fiquei ligado e angustiado, nunca tinha sentido este incomodo. É melhor tu ir para casa, já está “queimado”, disse o Leandro, o meu amigo. Deixa que eu pago a cerveja, acrescentou. A dor passou e comecei a caminhar para casa que ficava mais ou menos quinhentos metros. Chegando a casa, logo de entrada dei com a cara feiosa da minha mulher que fez aquele muxoxo e fez que não me viu, descendo a escadaria. Esse degraçado já vem bêbado. Foi o que ouvi. Sentei-me no sofá para assistir a televisão, quando a dor retornou com mais intensidade. Chamei pela mulher que veio toda espevitada. Falei para ela sobre estas dores que tinha acontecido e ela dando meia volta disse: Isso é cachaça! Isso é cachaça!. E, cantarolou: “Cachaça ainda mata um corno desse, será que esse, será que esse” e entrou para a cozinha para colocar o café e sopa na mesa e, gritou, Ei Mané a gororoba está mesa, vem se não esfria. Levei a mão no peito mais uma vez e a dor invés de sumir aumentava, já suava frio e a mulher fresca dizia é a cachaça que tá saindo. Vai tomar um banho que este teu suor esta fedendo mais do que merda de dois dias, jogando a toalha fubenta e úmida sobre a minha cabeça. Sai cambaleando até o banheiro, não pela bebida, mas pela dor que ia aumentando.Conversei novamente com ela e, ela disse amanhã já estais bom para começar tudo de novo, pois estes achaques eu já vi por mais de trinta anos, aqui mesmo, não é verdade broto? E saiu rebolando as cadeiras, rindo. Vai tomar teu banho, lava tua cabeça com água fria que esta “dorzinha” se é que estais passa logo, depois toma tua gororoba e vai-te deitar não na cama, para não sujar com este teu suor podre, e sim no colchonete que está embaixo da cama. Sai da mesa, depois de tomar um prato de sopa de carne, com pimenta, e fui direto para a cama. Deitei-me mesmo e a dor não diminuía, pelo contrário aumentava. Lá por volta da meia noite, eu já não agüentava aquela dor dilacerante no peito ou no estomago, me contorcia agarrado ao velho travesseiro, companheiro de sonhos e pesadelos. Falei para a mulher e ela ficou mais séria, não disse nenhum impropério. Como a minha casa fica em difícil acesso, pois temos que subir uma escadaria, pediu socorro ao meu vizinho Samuel, um bom homem que vive somente para a casa. Ele de pronto me atendeu. Coloquei o braço nos seus ombros e fomos para a pista, pegamos um taxi e fui direto para Restauração. Lá chegando, fui imediatamente, levado para uma sala de emergência, pois, o meu caso era serio, um inicio de infarto, depois é que eu vim saber. Fiquei dois dias na UTI aguardando a liberação e tomando remédios. A mulher me acompanhou praguejando, que isto era bem feito, pois, só vivia de farra e sabia que isto iria acontecer a qualquer momento. Bem feito! Bem feito! Somente assim ele sossega o facho em casa e deixa esta farra que não leva a nada. Voltei para casa e o tratamento era o mesmo, uma desatenção, umas ironias, sorrisos que nada valia era como se estivesse “achando bom aquele momento”.

Eu disse, e ai, Damião?

Pois é rapaz. Tomei vários remédios, fiz uma dieta de acordo com o medico e aqui estou. Mas não sabes da maior! Nestes dias que estava em casa, comecei a refletir que aquela vida não dava mais para mim e resolvi deixar a casa. Um dia, já passado seis meses, botei duas camisas e duas calças em uma bolsa e me mandei, sem dar nenhuma satisfação nem a mulher e nem a filho mais velho, o Josias. Já estava de “saco cheio” com aquela situação. Fui para um pensionato na Rua da União, num quarto não muito confortável, onde ainda estou. Já faz três anos que estou separado. Neste espaço de tempo recuperei a paz que ainda existia em mim. Soube depois que a “desgraçada” estava bastante doente e a fui visitá-la e lá chegando deparei-me com uma cena triste, ela em cima de uma cama acometida de um AVC e, aí eu fiquei perturbado e com pena e voltei para casa, contratando uma senhora para cuidar melhor dela. “Pediu-me perdão e fiz a mesma coisa, dizendo que as coisas do passado são do passado não mais existe” E aqui estou sentado nesta mesa de bar, novamente bebendo, pois este “bom vicio” não deixarei, apenas diminuí, pois a idade não permite coisas extravagantes, com os meus 71 anos.

Vamos tomar uma cerveja, que pode ser a última, depois deste desabafo.

E eu disse, “vira essa boca prá lá”. Rimos e brindamos a saúde.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho - taveirabelo@hotmail.com

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