terça-feira, 5 de abril de 2011

Este país ainda será uma imensa Venezuela



Nesta segunda-feira gorda, como sempre acordei com preguiça. Triste sina do homem que no melhor da festa se acorda com preguiça. Eu explico. É uma segundo-feira gorda porque desde o primeiro de abril que acumulo coisas para escrever, e reuni tantas que este é um dia cheio, gordo, prenhe de assuntos interessantes.

O que primeiro enxergo é um texto do Sandro Vaia, cujo título foi “A cabeça na bandeja”, foi escrito no dia da mentira, contrariando a tradição porque ele diz verdades cabulosas. É tão bem escrito e tão curtinho que o transcrevo todo abaixo e volto em seguida:

“Na gestão de Roger Agnelli, a Vale cresceu 17 vezes e se tornou uma das maiores mineradoras do mundo. No universo corporativo, os indicadores de crescimento, faturamento e lucro que proporciona aos seus acionistas, são usualmente considerados fatores decisivos para avaliar o desempenho de um executivo.

Por esses parâmetros, Roger Agnelli é um executivo extremamente bem sucedido. Seria, no jargão empresarial, um prato cheio para a garimpagem de um headhunter que procurasse um executivo para qualquer empresa do ramo de mineração no mercado mundial.

A verdade é que a demanda mundial pelo minério de ferro fez com que o preço subisse em dez anos de 27 para 190 dólares a tonelada, e isso com certeza ajudaria a compor o perfil de qualquer gestor que não seja totalmente néscio.

Mas o que está em jogo aqui não é a competência gerencial do executivo Roger Agnelli, mas a estranha conduta do governo que tenta há anos defenestrá-lo do cargo, o que finalmente conseguiu, depois que o acionista que garantia a sua permanência no cargo, o Bradesco, desistiu de continuar essa espécie de guerra de posições com o governo, e finalmente cedeu às pressões cada vez mais explícitas dos que queriam a sua cabeça- antes Lula, depois Dilma.

O estranho capitalismo para-estatal brasileiro, que tem em alguns aspectos certas semelhanças com o “socialismo de mercado” chinês, faz com que o governo se intrometa abertamente na gestão de uma empresa privada, com ações negociadas na Bolsa, como se fosse propriedade sua, e sem despertar no mercado e na própria sociedade reações mais intensas do que alguns cenhos franzidos e alguns editoriais manifestando polidas estranhezas, e nada mais.

A implicância do governo com Agnelli, segundo a ligeira cobertura da imprensa diária, teria começado durante a crise de 2009, quando a Vale demitiu 1.300 funcionários,no momento em que o presidente Lula se empenhava em divulgar a sua retórica que transformava a crise numa “marolinha”. Teria continuado depois com a assinatura de um contrato para a compra de dois grandes navios da japonesa Mitsui, quando o governo estava empenhado em estimular a indústria naval brasileira. A demissão de Demian Focca, amigo de Guido Mantega, de uma das diretorias da Vale, teria aumentado o contencioso entre o executivo e o governo.

Enfim, como administrador de uma empresa privada, Agnelli procurava fazer o que costumam fazer os administradores de empresas privadas: procurar os melhores resultados para os acionistas.

Mas no peculiar capitalismo brasileiro, essa regra tem um peso relativo. Mais importante que apresentar resultados para os acionistas, é ficar bem com o governo. Em homenagem a esse preceito é que a cabeça do executivo, finalmente, depois de uma longa queda de braço, foi servida numa bandeja.”

E voltamos ao que era antes no quartel de abrantes. Sei das peculiaridades do capitalismo brasileiro, se é que podemos chamar nossa economia de capitalista. Talvez não chegue a ser uma China, pois o PT não tem capacidade para comandar uma China. No máximo este país será uma imensa Venezuela, quando o pré-sal chegar. Mas, mesmo assim ainda me surpreende a fúria estatizante escondida agora atrás do poste.

Estão tratando, como sempre o fizeram, os brasileiros como crianças bestalhonas, como quando as mães dizem, tome meu filho, engula este “suquinho”, quando na colher está Emulsão de Scott. Mesmo assim, depois de 3 ou quatro colheradas do purgante, a criança começa a aprender e a chorar e espernear. Hoje quando o Mantega diz que está adotando medidas “macroprucenciais”, quer dizer mesmo é, este negócio, se deixar como está, o PSDB volta. Então vamos dar “suquinho” ao povo, e esperar a volta de Lula.

O que estão fazendo na Vale do Rio Doce é um crime contra a empresa “privada” no Brasil. Acabando de vez com a chance que temos de nos tornarmos um capitalismo pujante e uma economia merecedora do nome de emergente. Se assim continuar o BRIC se tornará RIC em breve. Enquanto a China, mesmo com um regime totalitário, politicamente, já descobriu, que respeitar a empresa privada é uma imposição para ser respeitada, nós, aqui, não respeitamos nem mesmos as nossas.

O que tem em mente os mentecaptos no poder. Já que não podem estatizar tudo novamente, vamos estatizar o comando de cada empresa. Quando o Sandra Vaia diz que as pressões sobre o Bradesco foram muitas e que a empresa cedeu, quer dizer apenas que a barganha feita com este banco e seus dirigentes apenas aumentou seus lucros por fora. Suas perdas como acionista, serão mais do que compensados por benesses governamentais, como sempre ocorre em regimes fechados.

Diante desta escabrosa realidade chegam as pesquisas de popularidade mais uma vez. Quando eu li os resultados pela primeira vez, foi no Diário de Pernambuco, onde havia um desses infográficos dizendo que, no mesmo período de governo, a Dilma ultrapassou tanto Lula quanto o Fernando Henrique, em popularidade, só perdeu para o Fernando Collor. Então eu gelei. Como, com o exemplo dos dois últimos presidentes, nem tudo que começa mal termina mal, principalmente com o Lula, que chegou a 83% no final de governo. Com o Collor concluímos que nem tudo que começa bem termina bem, pois deu no que deu. Não estou aqui agourando o governo do poste, o seu governo é que está fazendo por onde não dar certo. E todos eles sabem que popularidade e economia indo mal não combinam, e se eles continuarem se enganando a si mesmo ou, o que acho mais provável, nos enganando, diminuiremos o passo e a inflação nos pega, e se acelerarmos demais, com empréstimos subsidiados, vendo só o lado da oferta, a inflação nos come.

Para terminar este assunto da popularidade nesta segunda-feira gorda cito a Dora Kramer, que escreve melhor do que este ex-lulista:

Lua de mel. Natural e nada surpreendente que a presidente Dilma Rousseff apresente índices altos de aprovação nas pesquisas divulgadas recentemente. Por quatro motivos: carrega o legado da popularidade de Lula, que a elegeu; nesse período nada aconteceu que pudesse justificar perdas na avaliação; na comparação com Lula tem agradado à parcela da sociedade que não gostava do estilo dele; tem sido poupada pela oposição, que anda sem rumo, sem unidade e sem discurso. O desafio dela de agora em diante é conseguir corresponder às expectativas.”

Tinha ainda gordura para queimar com a reforma política mas, o artigo já está muito gordo, igual ao nosso vereador Severino.

Zezinho de Caetésjad67@citltda.com

3 comentários:

Altamir Pinheiro disse...

ALÉM DE ÓTIMOS TEXTOS, A CAPACIDADE DE CRIAÇÃO DESSE BLOG É DA BABA DESCER!!! O TIRAR DO NADA E TRANSFORMAR EM TUDO, AGUÇANDO A INTELIGÊNCIA DO LEITOR, DO CURIOSO, É IMPRESSIONANTE. É RARO, É ORIGINAL!!! MAIS UMA VEZ, PARABÉNS PELA CRIATIVA IMAGEM...

Zezinho de Caetés disse...

Caro Altamir,

Agradeço pela parte que me toca, que sei ser pequena. Há um jornalista na Folha de São Paula, que costuma dizer que o Brasil é o país da piada pronta. O que temos que fazer é só contá-las. Parece criatividade, mas é história.

Zezinho de Caetés.

Altamir Pinheiro disse...

Prezado Zezinho de Caetés,

QUANDO EU ME REFERI A CRIATIVIDADE DA IMAGEM NÃO QUIS DIZER QUE FOI VOCÊ QUE A INVENTOU, MAS TEVE A PERSPICÁCIA DE POSTÁ-LA.