quinta-feira, 7 de abril de 2011

O Bom Rapaz



Ontem foi um dia trepidante. Logo cedo, ao abrir as folhas, encontro duas notícias que embaralharam a minha mente. Uma, de cara, me joga na cara que os congressistas, insatisfeitos porque o poste cortou a luz de algumas emendas parlamentares, estão ameaçando fazer uma “operação padrão”, com as votações em pauta. Isto significa que entrarão “na moleza” ao votar coisas que venham do governo com a devida agilidade.

Eu não fiquei surpreso pela “inusualidade” do ato, e sim por eles, dizem os jornais, principalmente o “baixo clero”, fazerem de seu comportamento normal, uma ameaça. Ameaça mesmo seria eles trabalharem e votarem com mais rapidez aquilo que seja de importância para o país, e não só para sua futura eleição. E ainda falam de desequilíbrio entre os poderes. No Brasil a verdade é que não há desequilíbrio algum, pois só existe um poder, o executivo, os outros são nomeados, diretamente, ou por emendas parlamentares.

Logo em seguida o meu velho coração sofreu mais ainda. Imaginem que ontem havia mais de 20.000 agropecuaristas em Brasília, tentando fazer pressão para que fosse aprovado o projeto sobre o Código Florestal (é uma questão polêmica, já que, mesmo sendo um liberal convicto, hoje o liberal inteligente tem que ter pelo menos uma faixa verde, senão não vai ter prá ninguém no futuro). Não vou tratar disto agora, e sim de outra coisa que me pareceu estranha. A notícia dizia que, uma boa parte destes milhares de homens de negócio, tumultuou a Comissão de Turismo e Desportos.

Pensei logo. Eles queriam, na certa pressionar pela aprovação de projetos relativos ao Turismo Rural, ou mesmo, levar algum jogo da copa para alguma plantação de soja, onde o Brasil, já é campeão. Fiquei satisfeitíssimo com o grau de politização dos “marchistas”, cujo objetivo principal de sua ida a Brasília podia até ser justa. Mas, como se diz, “cai do cavalo” quando soube que o motivo que levou a tumultuar os trabalhos da comissão foi a tentativa de ver de perto o deputado Romário, do PSB-RJ. Meu Deus, será que algum deles foi ouvir o discurso do Aécio Neves no Senado?

Não sei. Eu ouvi uma parte, e quase dormia. Só não entrei nos braços de Morfeu porque começaram alguns apartes interessantes e que não deveriam só complementar o discurso do senador mineiro, mas substituí-lo em como se deve fazer oposição. Mas, pensando bem, ele é mineiro, uai!

Não escreverei sobre o discurso porque já encontrei escrito o que poderia escrever de uma maneira menos adequada do ponto de vista literário, jornalístico e de clareza. O artigo abaixo é da Dora Kramer, publicado no Estadão e tem o título de “Punhos de renda”. Lembrando dos meus velhos tempos do Cine-Jardim em Garanhuns, lembrei do Wanderley Cardoso, e o único reparo que faço ao texto da jornalista, é que o título deveria ser “O Bom Rapaz”.

“O senador Aécio Neves mostrou prestígio ao levar políticos em profusão para ouvi-lo no plenário do Senado, mas não conseguiu produzir o impacto nem o despertar da oposição que a tropa governista parecia esperar, muito menos deu razões ao governo para perder um segundo de seu sereno sono. Tépido na forma e repetitivo no conteúdo, passando ao largo de questões essenciais para o exercício da oposição como a independência do Legislativo em relação ao Executivo, o discurso acabou proporcionando aos senadores aliados ao Palácio do Planalto uma oportunidade excelente de mostrar vigor e afinação. Muito diferente das legislaturas anteriores quando, principalmente no primeiro mandato do ex-presidente Lula, a oposição fazia do Senado sua cidadela, ocupando a tribuna tardes a fio em ataques sem que aparecesse um senador para defender o governo.

Ontem à tarde o batalhão estava afiadíssimo: Aécio mal tinha subido à tribuna e a senadora Gleisi Hoffmann, do PT, pediu um aparte, concedido ao final assim como aos demais. Concluída a fala em que Aécio pontuou sua disposição de se opor sem se confrontar com os adversários, os governistas apresentaram suas armas de defesa dos governos Lula e Dilma Rous­seff sem o menor constrangimento de fazer isso em clima de franca confrontação. Em meio a elogios à “elegância” e ao “equilíbrio” do discurso e sem disfarçar o alívio pela tepidez do opositor, a tropa governista atacou as privatizações, ironizou a tibieza do PSDB em defender o governo FH, acusou várias vezes Aécio de ter sido injusto com a gestão de Lula e, pela voz do senador Jorge Viana, ainda afirmou que o orador simbolizava a oposição que todo governo gostaria de ter.

Da parte dos oposicionistas, exaltações algo exageradas ao “brilhantismo” do pronunciamento “de estadista” e uma evidente avidez por alguém que os represente. E assim, independentemente de Aécio Neves reunir ou não os atributos necessários por avaliação exigente, o senador se apresentou e dessa forma foi recebido por governistas e oposicionistas. Poucos, entre eles Pedro Ta­­ques, Marinor Brito e Demóstenes Torres, consideraram que a confrontação não é necessariamente um mal. Antes pode ser essencial à condução dos trabalhos de questionamentos doutrinários, programáticos, bastante mais inquietantes que a redução de alíquotas de impostos, transferência de gestão de estradas, revisão da Lei das Micro e Pequenas Empresas etc.

Temas importantes, mas nas circunstâncias em que a oposição precisa de mobilização política, liderança vigorosa, energia para recuperar o tempo perdido, encontrar o rumo para poder seguir adiante, o desempenho de Aécio deixou no ar um aroma de anticlímax. Não por defeito, mas por ausência de um atributo pessoal que poderia ser chamado de borogodó de tribuna. Aécio não tem. Mário Covas tinha. As saudações superlativas soaram artificiais, traduziram a avidez por um porto seguro onde os oposicionistas possam se agarrar, além de revelarem a amplitude amazônica do deserto de homens e ideias reinante na política nacional.”

Zezinho de Caetés

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