sábado, 7 de maio de 2011

Chochinho




Ouvindo a conversa descontraída dos homens de setenta, oitenta e noventa anos de idade, no calçadão da praia de Casa Caiada, onde todos os dias se reúnem para prosear, pela manhã, e contar as suas histórias vividas ao longo de suas vidas. Cada um conta uma piada, uma história, tira onda um com os outros e assim a suas vidas se prolongam, com risos e abraços.

Seu Pedro, carinhosamente, chamado de Pedrinho, tem 92 anos. Alegre e fanfarrão é um contador de histórias. Com a sua bermuda no meio das canelas finas, boné tipo italiano, óculos com grau elevado, tênis e meias amarelas. Anda devagar apoiado em sua bengala. Acompanho-o uma senhorita dos seus trinta anos que há muito é sua companhia, o que ocasiona muitas brincadeiras dos seus rivais inocentes. Ouvi esta estória enquanto descansava da caminhada, sentado tomando uma água de coco gelada para amenizar o calor.

“Sou de alagoas, alagoano da gema. Orgulho-me, batendo no peito. Em Coxim uma cidade de mais ou menos vinte mil habitantes, era formada por muitos agricultores que trabalham nas fazendas. Na família Silva, nasceu um menino chochinho, sarará, olhos azuis. Deram-lhe o nome de Jose Carlos Silva. Todos pensavam que não se criaria, pois era tão pequenino que cabia na palma da mão de um homem. A mãe uma cabocla e o pai um sertanejo, começaram alimentar aquela criança com papa de mandioca, leite de vaca e de cabra e o menino foi ficando forte e tornou-se uma criança problemática, aos sete anos de idade, com a anarquia dos meninos na escola municipal Dona Belarmina de Albuquerque. Não era anão, mas tinha uma baixa estatura. Adquiriu o apelido de Chochinho. Não quis estudar. Detestava ir à escola, por mais que a mãe mandasse, e a professora o chamasse. Andava pelo mato a caçar passarinho e tomar banho em um açude na propriedade do Prefeito. Ali se criou e passou a fazer mandado na vizinhança. Tudo que queriam era com Chochinho, prá lá, Chochinho prá cá. Ia botar carta no correio, ia levar feira nas casas, comprar pão na Padaria do Seu Umbelino, comprava carteira de cigarros, fazia de tudo para ganhar um trocado. E assim foi se tornando adulto. Todas as pessoas gostavam dele, pois, era respeitador e de confiança. A mãe cultivava no quintal do seu casebre no final da Rua Marmeleiro, canteiros de coentro, cebolinho, tomate, pimentão, quiabo, uma lareira de chuchu, que vendia na feira todas as quintas feiras. A rapaziada da cidade, não poupava o Chocinho, anarquizava com ele, quando estava sentado no banco da praça aguardando um chamado.

Luizão filho de Luiz Oião, dono de uma vacaria por trás do seu casarão era o que mais atormentava o Chochinho. Riam e ridicularizava na frente de todos. Mandava e desmandava quando queria. Certo dia na praça, uma moça que Luizão tinha olho nela, Chochinho trombou com ela que desequilibrada caiu no chão e foi aquela anarquia, que a moça ficou encabulada. Luizão tomou as dores, empurrou Chochinho que caiu e deu-lhe uma bofetada na cara e dois chutes nas costelas.

Vai tamborete de zona!

Pequeno Polegar!

Anão de Maricá! Riam a vontade, debochando e mandando-o a catar batata. Vai embora anão de uma figa.

Chochinho se levantou e olhou com ódio, enquanto os demais rapazes sorriam com aquela cena. Sumiu Chochinho do comercio, da praça enfim de todos. Vivia amuado, pelos cantos do casebre e no quintal. Sua mãe sabia do acontecido e o aconselhava a desconsiderar. Ele, dizia, mãe homem nenhum leva uma tapa na cara e, eu levei! Somente a mãe pode dar no filho e, a mãe não faz o quanto mais um filho de uma égua.

Vai me pagar. Não sei quando, mais que vai pagar, pode anotar. Neste meio tempo as escondidas, Chochinho afiou uma faca peixeira de seis polegadas, dos dois lados e enfiou no tronco de uma bananeira, no quintal. E, disse para si mesmo: Ninguém escapa de uma cutucada na barriga. Riu e saiu para o mato para caçar.

A mãe assustada com aquele desejo foi pedir conselho ao Padre Damião, um velho de seus setenta anos, mas muito querido na cidade. O velho padre atendeu a Dona Carmelita e mandou chamar o Chochinho para ter uma conversa no pé do ouvido. A mãe dando o recado, Chochinho que tinha medo do padre Damião, foi às escondidas a boquinha da noite. O padre Damião deu-lhes uns conselhos, mas assim mesmo o desejo de vingança permanecia, só bastava uma oportunidade. Saiu e foi direto paras casa. Alguns moradores o viram e procuraram saber o porquê do seu sumiço. Ele nada dizia. Caminhando sem dar muita atenção ia cabisbaixo remoendo a sua raiva.

Chochinho que há muito tempo não ia à cidade, aproveitou uma novena que estava acontecendo na Matriz de São Sebastião e foi rezar. Ficou na primeira fila, como de costume, pois via tudo, o padre, o sacristão, as devotas que cantavam, e as pessoas que iam comungar. Terminado a novena, saiu pela porta de frente, quando se esparramou no chão. O Luizão tinha colocado o pé e ele tropeçou. Levantou-se. Não disse nada. Foi até a casa, indo até o pé de bananeira, retirou a faca peixeira, colocou na cintura e voltou para a calçada da Matriz, mas não encontrou Luizão que já estava na praça rindo e caçoando das pessoas junto com os seus colegas. Chegou perto e o Luizão afoito disse – eu falei para você não aparecer mais aqui? Empurrou Chochinho. Neste momento, sacou da faca que trazia na cintura, enfiou três vezes na barriga do brigão Luizão que caiu estrebuchando na calçada, o outro amigo, que foi acudir levou uma estocada e colocando a mão no lugar do ferimento, gemendo foi cair agonizando a uns dez metros de distância. O povo que se encontrava no local, saiu em correria do local enquanto o Chochinho em desabalada carreira desapareceu no matagal escuro... “Até hoje...”

Seus companheiros riram. Pedrinho esta estória está mal contada é mais uma invenção sua, amanhã vem com outra estória mais feliz. Todos começaram a se levantar, pois já era mais ou menos onze horas da manhã. Vou tomar o meu remédio, disse Honório seguido de Fael e Zé e outros que não gravei seus nomes. Segui também o meu caminha de volta para casa.

José Antonio Taveira Belo / Zetinho

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