sexta-feira, 20 de maio de 2011

DE ANALFABETOS DIGITAIS A DONOS DA PALAVRA



Mesmo com dificuldades, brasileiros se inserem na sociedade informatizada e transformam vidas


Caroline Berbick (*)


Enquanto o mundo inteiro se conecta pela rede infinita chamada internet, tem gente que continua vivendo sem a tal regalia. Ainda existem aqueles que recorrem à grossa lista telefônica para encontrar endereços ou que passam anos sem ter notícias de alguém que mora longe. Mas essas pessoas estão desaparecendo, ou, como dizem, evoluindo. Na sociedade da informação, que transporta tudo o que é palpável para dentro das telas de LCD, o espaço daqueles que interagem apenas com o “mundo real” está terminando. A sociedade está em transformação e um novo fenômeno vem à tona: a migração digital.

Entre os mais de 190 milhões de brasileiros, quase 74 milhões têm acesso à internet, de acordo com o Ibope/Nielsen de março deste ano. Em relação a 2005, o número atual representa um crescimento de 130% dos internautas, o que significa que milhões de brasileiros, antes excluídos digitais, hoje têm acesso ao computador. O esforço do Governo Federal para a criação de programas de inclusão digital também se reflete nessas estatísticas. Um exemplo é o Plano Nacional de Banda Larga, que vai consolidar a popularização da web se atingir seu objetivo de levar a internet por um preço acessível a todos os municípios brasileiros, até 2014. Mas ainda assim, os “analfabetos digitais” correspondem a grande parte da população brasileira. Desta necessidade, surgiram os Telecentros, unidades de acesso público à informática que oferecem, também, cursos básicos. A intenção é resolver o seguinte impasse: de que adianta facilitar o acesso à internet e à tecnologia, se não há o domínio da sua principal ferramenta de conexão, o computador?

O monstro da tecnologia

Quem nasceu no fim do século XX e início do século XXI pode ser chamado de “nativo digital”. Já veio ao mundo imerso em diferentes tecnologias e desenvolve sua inteligência e habilidade no mesmo passo que a evolução da informática. Essas pessoas têm mais facilidade para lidar com a linguagem virtual. Mas e a geração da máquina de escrever? E aqueles que não tiveram ensino básico adequado? Esses, muitas vezes, enfrentam um verdadeiro desafio para se adaptarem a cada inovação. Mas isso não impede que - os que têm a oportunidade - se tornem “migrantes digitais”: aqueles que não tinham noção mínima de informática, mas que se envolvem, ou acabam sendo envolvidos por ela.

Marcos Vinicios Bueno Marques é professor de informática há seis anos e sabe que nem sempre a adaptação é fácil. Ele está acostumado a lidar com o perfil de aluno com dificuldades: “Tem que dar atenção especial, tentar identificar as facilidades e as dificuldades da pessoa para minimizar os transtornos no aprendizado. O professor tem que ter habilidade”. De acordo com Marcos, quando o acompanhamento é correto, o normal é o aluno se adaptar ao computador depois de uma semana de aula, mas também existem casos de abandono do curso. “Cancelam a matrícula sem dizer o motivo, dizem que não se adaptaram. Alguns ficam realmente nervosos com o computador. Suam frio e até tremem; sintomas da ciberfobia”.

Ciberfobia? Praticamente não se fala disso no Brasil. Renato Sabbatini, diretor do Núcleo de Informática Biomédica da Unicamp, é um dos poucos estudiosos brasileiros que tratam do assunto. Segundo Sabbatini, a ciberfobia é um dos desdobramentos da tecnofobia, doença que causa aversão a artigos tecnológicos, desde controles remotos e celulares, até o computador. O indivíduo tem medo de mexer no teclado e provocar algum dano irreversível, não entende nada do que está aparecendo na tela e também não demonstra curiosidade de aprender. Prefere manter distância.

O problema é que isso impede que a pessoa progrida num cenário em que, cada vez mais, a tecnologia se funde a utensílios domésticos, automóveis e serviços gerais, como as agências bancárias. “Um ciberfóbico acaba tendo que viver como no século passado, e se isola muito com isso”, afirma o professor, em um artigo publicado no jornal Correio Popular, de Campinas. O tratamento para esta fobia se assemelha ao de outras doenças psicológicas. O ideal é que haja acompanhamento de um profissional e a aproximação gradual do computador, começando com coisas muito simples e úteis, de preferência tarefas repetitivas e pouco "assustadoras".

Luta pela inclusão

Ciberfóbicos ou não, existem milhões de excluídos digitais que sentem o peso do isolamento e partem para o “combate” com o computador.

Renato da Silva tem 50 anos. Ele trabalhava carregando caçambas de caminhão até que, um dia, fraturou o punho direito. A lesão limitou os movimentos da mão e ele teve que deixar o emprego. Frente ao desafio de procurar um novo trabalho, Renato se inscreveu em um curso de auxiliar administrativo. Tudo ia bem, até que a professora levou todos ao laboratório de informática. Renato sentou em frente ao computador e ficou estático. Enquanto todos escreviam textos e pesquisavam na internet, ele olhava para a tela sem saber por onde começar. Hoje, Renato frequenta outra sala de aula, também repleta de computadores. Ele faz parte de um grupo de pouco mais de dez pessoas, que têm pouquíssima noção de computação, mas que estão em busca da qualificação profissional que a informática pode proporcionar.

Valquíria Gratti é colega de Renato. Ela também faz parte da parceria entre INSS e SENAC, que tem por objetivo reinserir no mercado de trabalho aqueles profissionais que foram afastados por problemas de saúde. Aos 34 anos, Valquíria procura uma nova oportunidade. Quer trabalhar em uma portaria, serviço que exige conhecimento de informática. Na quinta aula do curso que dura cinco semanas, ela admite: “Deu vontade de sair correndo no primeiro dia. Quero aprender, mas não sei como funciona. Estou quebrando a cabeça”. Valquíria não tem computador em casa, tem medo de “apertar algo errado e estragar”, mas também tem muita curiosidade, e está decidida: “Quero usar a internet para pesquisar, usar o banco, saber sobre as empresas, buscar um serviço”.

A utopia que deu certo

Apesar do avanço da inclusão digital, o Brasil ainda tem longo caminho a percorrer para superar a barreira que a desigualdade social impõe ao acesso de todos ao computador. Um estudo feito em 2007 pelo pesquisador Julio Jacobo Waiselfisz, intitulado Lápis, Borracha e Teclado, revelou que entre os 10% de população mais pobre, apenas 0,6% tem acesso a computador com internet. Enquanto isso, entre os 10% mais ricos, esse número é de 56,3%. O estudo mostra, também, que somente 13,3% dos indivíduos de raça negra usam a internet, mais de duas vezes menos que os de raça branca (28,3%). As discrepâncias regionais também chamam a atenção. Os índices de acesso à internet das Regiões Sul (25,6%) e Sudeste (26,6%) são mais de duas vezes superiores aos constatados nas Regiões Norte (12%) e Nordeste (11,9%). No Distrito Federal, 41% da população usa a internet, ao passo que, em Alagoas, apenas 7,7% o fazem.

Pois é na Região Nordeste, onde se tem o menor índice brasileiro de acesso à internet, que vive Lucinha Peixoto, uma mulher que ignorou algumas estatísticas. Lucinha vive no agreste de Pernambuco, a 280 quilômetros de Recife, na cidade de Bom Conselho. Trata-se de uma cidade de 45 mil habitantes, que sustenta o título de terra natal de Pedro de Lara, com economia baseada na pecuária, ensino de diretrizes autoritárias (reflexo que ainda persiste da ditadura), e uma característica bastante interessante: atividade blogueira intensa.

Lucinha é uma das pioneiras dos blogs de Bom Conselho de Papa-Caça. Perto da “boa idade”, como se classifica, ela se considerava uma ciberfóbica: “Sobre computador não tinha conhecimento nenhum. Sentimento, pavor”. Mas de forma lenta, segura e gradual, Lucinha foi se adaptando, e hoje utiliza tranquilamente a máquina: “Tive o incentivo dos meus filhos. Foi através deles que consegui me aproximar do bicho e descobrir que ele não mordia, embora hoje saiba que pode provocar crises existenciais, sociais e políticas, que podem ser terríveis.”

Parte da aproximação de Lucinha à informática se deu pelo seu trabalho. Ela era secretária de numa empresa chamada CIT LTDA, que produzia vídeos de entretenimento e reflexão, utilizando computação gráfica. Porém, nas palavras de Lucinha, depois que o Diretor da Empresa decidiu que, a partir de uma certa idade, computação gráfica seria demais para os seus neurônios, todos passaram a investir no Blog da CIT, onde Lucinha é uma das colaboradoras mais assíduas.

O Blog da CIT foi pioneiro na cidade e, desde 2008, já recebeu quase 100 mil acessos. As atualizações são feitas quase diariamente pelos membros da equipe, pouco menos de dez colaboradores. Intitulado “Um Blog de Bom Conselho”, a página apresenta crônicas bastante elaboradas sobre diversos assuntos: acontecimentos gerais, política, cultura. Até biblioteca o blog tem, com links de livros indicados pelo conselho editorial. A ideia empolgou os conterrâneos de Bom Conselho, e outras pessoas que também não se satisfaziam em apenas publicar seus comentários no site da prefeitura, que segundo eles, faz certa censura, passaram a criar seus blogs.

Formou-se uma comunidade blogueira extremamente crítica e reflexiva em Bom Conselho. Assuntos polêmicos, discussões políticas, textos de qualidade, todos conversando entre si. Agora, a novidade da rede virtual da cidade é o blog A Gazeta Digital. Bom Conselho tem um jornal chamado A Gazeta, mas, apesar dos pedidos, o periódico nunca se aventurou a migrar para a internet. Pois a comunidade blogueira, em especial o Blog da CIT, se apropriou da missão e criou a própria Gazeta Digital, que tem por objetivo ser um blog noticioso. A ideia inicial é publicar conteúdo produzido pela comissão editorial, mas também receber contribuições por e-mail para preencher espaços destinados a artigos, avisos, fotos, e assuntos como história e geografia, política e economia, sociedade e turismo. Em cinco meses, foram, pelo menos, 15 mil acessos. Por ser novo, ainda existe muita expectativa e formatos a serem mudados. Tudo guiado pelas manifestações dos leitores e pelo prazer de escrever da equipe.

Bom Conselho, cidade pequena do agreste de Pernambuco, tornou-se um centro de comunicação alternativa de alta qualidade. Lucinha Peixoto, que não largou das panelas e nem do neto, se faz ouvir não só em Pernambuco como em qualquer outro lugar do mundo, levando sua literatura e reflexões de pessoa vivida. Valquíria Gratti e Renato da Silva, antes desqualificados para os empregos que sempre tiveram, agora têm no currículo a esperança de novas oportunidades. Isso chama-se inclusão digital.

--------

(*) A autora é estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. O texto será publicado em uma revista acadêmico da própria Universidade.

3 comentários:

Altamir Pinheiro disse...

O TEXTO É UM ESPETÁCULO À PARTE. PORÉM, JÁ BRADEI NOS QUATRO CANTOS DO MUNDO QUE O BLOG DA CIT NÃO DEVE NADA A NENHUM OUTRO EXISTENTE NO PAÍS. NO ENTANTO, POR CHAMAR A LUCINHA DE INTELECTUAL, CERTA VEZ FUI IRONIZADO PELO INVEJOSO E BABACA(PARA NÃO DIZER OUTRAS COISAS DO ZÉ FERNANDES DE BOM CONSELHO).

P.S.: - PESSOAL, DESCULPE!!! NÃO ME LEVE A SÉRIO, PREFIRO SER LEVADO ÀS PÁGINAS DO BLOG DA CIT!!!

Ilha de Pala disse...

É conterrânea Lucinha Peixoto,ser blogueira e multifuncional na melhor idade não é pra qualquer uma, tem que ser brogodoense, desculpe bomconselhense, terra de mulher fêmea, como diria Pedro de Lara. Valeu conterrânea. Roberto Lira

Lucinha Peixoto disse...

Obrigada ao "Guerrilheiro" e ao Roberto pelos comentários a este texto que achei maravilhoso. Eu não entrei nele como o Pilatos no Credo, pois fui quem deu a entrevista sobre o que era a comunicação em Bom Conselho. Já me comuniquei com a Caroline Berbick, que é mais nova do que minha filha mais nova, sobre algumas coisas que não exatas, como por exemplo, que moro em Recife agora, e não em Bom Conselho. Mas, como eu disse a ela, isto não tira o mérito nem a veracidade do seu belo artigo.

Agora, sem falsa modéstia, que foi bom para mim, Blog da CIT e para Bom Conselho isto foi. Vou pedir depois ao Luis Clério para publicar a Caroline na A Gazeta. Se o Jodeval não quiser que os elogios a mim apareçam, pode até editar o meu nome substituindo-o pelo de Doralice Peixota, que é minha parenta, brogodoense legítima, e que é agora a princesa de Seráfia. Mas, mantenha o nome dos Blogs e de Bom Conselho.

Desculpem as jocosidades tradicionais e muito obrigada pelos comentários.

Lucinha Peixoto