sábado, 28 de maio de 2011

RECIFE - A SEGUNDA PÁTRIA



Esta semana recebi o seguinte e-mail, que reproduzo na base do Ctrl+C, Ctrl+V, sem nenhuma edição:

Olá, meu nome é Luciana Santana sou aluna da UFPE e estou escrevendo uma dissertação sobre o Ginásio Pernambucano na década de 1980, encontrei na internet, em um blog, um depoimento sobre esta instituição e gostaria de pedir sua autorização para publicá-lo. Caso autorize, perciso do seu nome para escrever abaixo do depoimento.

Desde já muito obrigada.

Luciana Santana.

Mestranda em Educação - UFPE.

Respondi com seguinte e-mail que reproduzo nas mesmas bases:

Prezada Luciana Santana,

Eu já escrevi sobre o Ginásio Pernambucano, pois estudei lá na época que já era CEP. Escrevi no Blog da CIT. Lá eu escrevo como Diretor Presidente, que é um pseudônimo. Infelizmente não posso dizer-lhe meu nome de batismo, por compromissos assumidos, mas, desde já você está autorizada a publicar o depoimento, citando o Blog da CIT, que é um blog da cidade de Bom Conselho. Se isto a ajudar na dissertação, é uma alegria imensa para aqueles que fazem o Blog da CIT.

Saudações

Diretor Presidente

PS. Talvez tenha escrito mais de uma vez, sobre o CEP. Você poderia mandar me dizer o título da postagem.

Até agora não chegou nenhuma resposta da Luciana, e nem mesmo sei se ela se chama mesmo Luciana ou não. Não importa, pois neste meio digital, o anonimato é regra e os nomes corretos são as exceções. Agora, como em outras coisas sigo o pensamento de Lucinha Peixoto, que até notícia já é: “Escrevo, logo existo”. Não é preciso nem pensar.

Em relação a isto, anonimato, pseudonímia, heteronímia e quejandos, eu estava lendo no Mural da AGD, um senhor que viveu em Bom Conselho chamdo Almir Frederico. Eu não me lembro dele, e o Zé Carlos diz que ele é seu cunhado. Ele fez uma obra lá em Águas Belas, onde mora atualmente, meritória por sinal. Se eu fosse ler as pessoas só quando sei que elas são de carne e osso, eu não leria o Almir Frederico, e estaria perdendo o bom causo que ele contou sobre Zé Trindade a quem também conheci. Não leria a Bíblia, pois ainda colocam dúvidas se Cristo existiu ou não, e se existiu, tenho certeza, não foi ele que ditou tudo que escreveram que ele disse. E assim por diante...

Voltando aos e-mails, minha reação primeira foi pensar: Será que eu já escrevi sobre o Ginásio Pernambucano? Antes da resposta eu fui ao Blog da CIT e vi que já havia escrito sim. Embora muito pouco. No artigo onde fiz isto, falei mais do Recife como um todo e de Bom Conselho, como sempre, em particular. Não gosto de ler o que eu escrevi, mas desta vez, fui lendo, lendo e cheguei ao fim. Descobri que já escrevi estórias interessantes. Reproduzo o texto logo abaixo, e que foi publicado originalmente em 2010 (aqui).

“RECIFE - A SEGUNDA PÁTRIA

No dia em que escrevo é o aniversário de Recife e de Olinda. Não vou historiar sobre estas duas belas cidades, que olham uma para outra há mais de 470 anos. Relação entre irmãs, nem sempre pacífica e sem desentendimentos. No final, como boas irmãs, elas se entendem. Vê-las-ei por outro ângulo. O de uma terceira cidade tão distante e tão perto. Bom Conselho.

Os vínculos entre estas três cidades são evidentes. Noves fora política partidária, Olinda teve dois dos seus melhores prefeitos vindos de Bom Conselho. Alguém já disse que uma das grandes vocações dos jovens de Bom Conselho era ser prefeito de Olinda. Este é um vínculo visível e real mas, o principal é aquele que por muito tempo, junto com o Recife, existiu, o de ser a Meca das pessoas de Bom Conselho, em busca de estudo e oportunidades.

Deter-me-ei em Recife, pois este foi o meu caso. Terminado o Curso Ginasial no Ginásio São Geraldo, que sempre nos iluminou e prometia que nos daria no futuro o segredo da vitória. Mas, aonde? Ficar entre os quatro muros da terrinha era muito pouco para mim, embora reconheça que cada um tem seus objetivos e, assim alguns ficaram e fizeram lá sua vitória. Eu e outros que pretendíamos mais e tínhamos condições materiais para isto, emigramos, e, sem cálculo preciso, o destino de 90% era, inicialmente o Recife. Alguns ainda iam dar um passeio por Garanhuns, mas terminavam no Recife.

O Recife foi a segunda pátria de muitos de Bom Conselho. Uma pátria bonita, nem sempre generosa mas, sempre acolhedora. Cada um tinha a sua dificuldade específica. Alguns em seus apartamentos alugados em locais nobres, outros em pensões insalubres, outros em casas de parentes, outros ainda em casas próprias para onde traziam outros que não as tinham. E todos a procurar colégios, para estudar pela manhã, pela tarde, pela noite. Todos, de uma forma ou de outra conseguiam o seu canto. Para aqueles pouco estudiosos, mas com grana, ainda restava o Carneiro Leão, que diziam ser PP, pagou passou. O mais procurado era o Colégio Estadual de Pernambuco, o chamado Ginásio Pernambucano. Eu fui para lá mas, não foi fácil conseguir vaga. Era uma verdadeira Universidade, pela qualidade de seus professores, os quais encontrei muitos deles depois na UFPE.

Este colégio me dá saudade, não somente pelos colegas que tive ou pelas boas horas pelas quais lá passei. Me dá saudade maior é de uma educação pública de qualidade. Posso até dizer que ele foi um marco da educação pública no Brasil. Com a decadência do Colégio Estadual, perto da década de 80, a educação pública foi também a pique.

Mas não é só de educação que quero falar deste Recife mais do que quatrocentão. Havia o Gemba, na Rua da Aurora, que tinha um sorvete obrigatório para quem ia assistir a alguma filme no Cine São Luiz, e que tinha um paletó para entrar. O Art-Palacio, o Cine Trianon, o Cine Moderno, e mesmo o mais novo deles o Cine Veneza. Naquela época ainda existia um cinema em cada bairro. Em Casa Amarela podíamos ir para escolher entre três, inclusive o Albatroz.

As ruas calmas e tranquilas, mesmo nos dias de semana, com dois ou três fuscas passando pela ponte Duarte Coelho, os passeios entre as Ruas Nova e Imperatriz, com a visita obrigatória à Viana Leal, onde andei pela primeira vez numa escada rolante. Ali eu não sabia que ainda ia rolar tanto pelo vida e pelo mundo. Uma olhada na vitrine muito bem feita da Slopper e nos cartazes dos cinemas ali perto.

Esperar, em dias de competição que os barcos a remo singrassem o Rio Capibaribe, enquanto admirava as belezas do Teatro Santa Isabel e mesmo o modernismo do prédio dos Correios. Não havia assaltantes, ladrões, e nem mesmo víamos policiais.

Mas nem só do espírito vive o homem, principalmente o homem novo e hormonalmente instável. Barão do Rio Branco, Rua da Guia, Rua do Bom Jesus, enfim, Recife Antigo, hoje um ponto turísticos de nossa “quatrocentona” cidade. Naquela época não íamos lá para correr atrás do Bloco da Saudade, íamos para não fazer grandes esforços manuais e não ficar na saudade. Muitos dos bom-conselhenses machões que conheci na minha época, e que contavam grandes façanhas sexuais nas reuniões das praças e rodoviária de Bom Conselho, chegaram aqui mais virgens do que a Venus de Milo. Normalmente, esta virgindade era curada com uma doença venérea na Rua da Guia e adjascências.

Camisinha naquela época só de bebê pagão. Tínhamos a maior vergonha de chegar na farmácia de Ivan e comprar, e mesmo aqui em Recife, arriscávamos na loteria. Parece mentira mas nunca acertei no azar grande. Na pensão onde morava, meus colegas, depois do passeio, passavam três dias indo ao banheiro preocupados, e quando gemiam, eram logo alijados do convívio no banheiro. Tinha que começar no Benzentacil, e usar outro banheiro, até parar de pingar.

Atualmente é muito diferente. Mas, sabe de uma coisa, vamos ficar por aqui para não conspurcar nossa saudade de nossa bela segunda pátria.”

Depois disto tudo que escrevi, e dentro deste escrito falando em Educação Pública, o que chegou ao interesse de um mestranda em Educação, o que muito nos honra, eu pergunto: a quantas anda a Educação Pública em nosssa terceira pátria, o Brasil? Vendo o filme seguir, que foi muito divulgado, até em programas de TV, sendo verdade, penso, vai muito mal. E parece que tanto em minha segunda pátria, o Recife, como em minha primeira pátria, Bom Conselho, parece que a situação não é diferente.



Diretor Presidente

3 comentários:

José Fernandes Ccsta disse...

Prezado Diretor Presidente: se o seu escrito sobre o Ginásio Pernambucano nada valesse, você receberia nota MIL só por essa fala da professora AMANDA GURGEL. Essa realidade precisa ser passada e repassada aos responsáveis pela educação pública e aos irresponsáveis da educação pública neste país. Esse fato concreto por que passam os (as) professores (as), Brasil afora, é simplesmente, vergonhosO! - NÃO dá mais para tapar o sol com a peneira. - Cinismo, descaramento têm limites. Aliás, NEM deveriam existir. Pelo que NÃO precisariam de limites. - Farei, a seguir, breve comentário sobre seu texto./. - Abraço, José Fernandes Costa - jfc1937@yahoo.com.br

José Fernandes Ccsta disse...

Continuando: também estudei no Ginásio Pernambucano. Nos anos 60. Fiz exame de admissão para poder entrar lá. Fui aprovado e entrei. E lá vi ensino sério e de qualidade. Sofri com a Matemática, a Física e a Química. Terminado o 1o. ano, tive de migrar para o "Cabaré de Soares" (PP), do qual você não falou. Você também não falou da Casa do Estudante, no Derby. Eu não morei lá. Morei na Rua da Imperatriz, 147 (onde nasceu Joaquim Nabuco, segundo dizem). Mas, quando lá morei, era um pardieiro, isto é, era a pensão da d. Elvira. Era um pardieiro, mas não era prostíbulo. Ficava numa esquina. E na esquina ao lado, estava a Confeitaria Confiança, da qual você também não falou. Aos domingos, tomava o café da manhã na Vestal - Rua do Hospício. - Você falou na Gemba, esqueceu a Pérola. E o quem-me-quer, na frente do São Luiz? E o Botijinha, o Savoy etc. E a Boate Mauá, onde íamos dançar com as quengas de mais requinte? E um puteiro na Rua Direita, cujo nome da dona, agora me falha. Sei que era uma coroa bem enxuta. E se gabava de "fazer de tudo", naquelas "artes marciais". - Mais: você disse que conhece Recife. Então, por que não falou em Lolita? Pois, segundo ele/ela: "Quem não conhece Lolita, não conhece Recife." Esse era o lema do pequeno grande veado. Quando Lolita fechava o tempo, vinha a Rádio Patrulha e ele/ela distribuía bordoadas a torto e a direito./. É isso. - José Fernandes Costa.

Diretor Presidente disse...

Caro José Fernandes,

Boas lembranças. Lembro todas, inclusive da Lolita. Obrigado pelo comentário.

Diretor Presidente