sexta-feira, 13 de maio de 2011

SEXTA-FEIRA 13





Hoje acordei como minha mãe dizia em Bom Conselho, “com o diabo no couro”, que é uma corruptela da palavra correta “corpo”. No “couro” ou no “corpo” eu me acordei hoje com o Recife em guerra. Foram tantos foguetes, que eu duvido que em suas mediações tenha sobrado alguém dormindo. E para quem mora na Ilha do Retiro como eu, parecia até que estávamos sendo invadidos pelo Exército de Brancaleone, que hoje é Sport Clube do Recife, esperando sua degola natural pela cobra no próximo domingo.

Assuntei um pouco, reclamei e o meu marido matou a charada. Hoje é dia da Abolição da Escravatura. É mesmo, meu “véio”. Virei para o outro lado e tentei dormir. Não consegui, porque os estampidos continuavam. Ah! Hoje é dia de N. S. de Fátima. Descobri. E vi o tamanho do meu pecado. Devota número 1 desta miraculosa Santa, logo eu, esquecendo o seu dia. Os fogos eram justíssimos.

Minha sensação, mesmo sem os estampidos, continuou. O que diabo seria isto? Só agora de frente com este companheiro diário, que nem pareço ter sido um ciberfóbica, o meu laptop, desfaço minha dúvida, sobre meu desconforto existencial. Hoje é Sexta-Feira 13. Todos sabem o monte de crenças, lendas, estórias e insinuações a respeito deste dia aziago.

Agora que lembrei que não levantei com o pé direito, nem fiz minhas obrigações para as divindades da umbanda. Já sei que vão dizer que isto é pecado, e principalmente para uma católica praticante como eu. Mas, diante do sincretismo religioso não posso mais nem criticar minhas origens culturais lá de Bom Conselho.

Rezar contra doença de gado, rezar contra mau olhado, pedir proteção a um galhinho de arruda, procurar um pé de vassourinha para Joana Preta rezar em mim, quando estava com fastio, tudo isto são crenças que vem dos negros africanos que tanto fizeram por nós, e se ainda existisse algum no Brasil continuam fazendo. Hoje é o seu dia também. Pela comemoração de um pouco mais de 100 anos que devolvemos a eles a liberdade que nós mesmo tiramos. Ainda bem que atiramos e hoje o vemos ocuparem espaços com sua luta pela sua integração racial.

Hoje, com o advento dos “fazedores de bem, mesmo que não saibam a quem”, que querem acabar com o que nos resta de nossa origem negra: os pardos, que nos fazem um povo criativo e belo, com uma tal de integração racial feita a sopapos. Esta tal de política de cotas raciais é uma vergonha para todos os nossos pardos e uns poucos negros que ainda existem que podemos contar nos dedos. Vocês já pensaram se existisse este sistema de cotas antes. Tenho certeza não teríamos o Pelé como rei do futebol, pois ele era mais chegado às mulheres brancas, e não se inscreveria no programa. O Lázaro Ramos hoje não seria galã (embora como eu já disse, prefiro o Antônio Pitanga) da Rede Globo, pois tenho certeza ele também não entraria no programa. E tantos outros que venceram lutando pela vida como qualquer de nós, menos pretos, fizemos.

Mas deixa isto prá lá, pois hoje também é dia de N. S. de Fátima e tenho que repetir um vídeo que publiquei recentemente na A Gazeta Digital, que a CIT Ltda fez quando viajamos para a Europa. Espero que não comecem a dizer que eu só quero me gabar de ter ido à Europa, pois depois que entrei para MSCV (Movimento dos Sem Concordância Verbal) os depuradores da língua podem me acusar de tudo. Mas, eu ainda resisto a entrar na Universidade pelo sistema de cotas, embora meu direito esteja estampado na minha pele.


Lucinha Peixoto

P.S.: Hoje foi um dia atípico pela falha no Blogger que nos deixou todos mudos. Parece que agora voltou. Desculpem pela postagem tardia, e que N. S. de Fátima proteja também os prepotentes e orgulhosas, principalmente aqueles que se fingem de bonzinhos.

LP

Nenhum comentário: