segunda-feira, 16 de maio de 2011

Uma "adequada" homenagem a Lula




Até hoje repercute o caso do livro, incluído pelo MEC em sua lista de indicados para as escolas, "Por uma vida melhor", da professora Heloísa Ramos, cuja opinião verbal é emitida no vídeo que mostramos abaixo, e que sugerimos que seja visto antes de lerem o que escreveremos a respeito.

Como todos que me lêem desde que escrevo neste blog sabem que minha formação é de letras e até já fui professor de português. Num debate memorável com o professor José Fernandes, na época em que ele não tinha se tornado só um comentarista, sobre a reforma ortográfica. Desde lá eu já defendia a criação de uma língua brasileira, deixando de lado o ranço do português, que é a única coisa que nos prende ainda ao tempo de colonos.

Na prática isto já existe em termos da oralidade, e estamos conseguindo colocar nossa língua brasileira através destas reformas, que são essenciais para termos uma língua unificada e que possa ser ensinada nas escolas. Temos sempre uma norma culta e uma norma oral para língua. E é esta última que puxa a primeira e não ao contrário. Se isto não fosse verdade ainda estaríamos falando latim.

Agora, uma coisa é querer criar uma língua brasileira dentro da norma culta, que é apenas a tarefa de transferir para a gramática as regras que a língua tem hoje em sua oralidade. Outra coisa é querer impor “opiniões” estatais sobre o que é certo e o que errado na linguagem. Um exemplo claro, é a nossa reforma ortográfica, já em curso, e aprovada até pelo ex-presidente Lula, este luminar da oralidade brasileira e que ainda não lê de carreirinha, nem escreve de jeito nenhum. Alguns professores, por discordarem da reforma ortográfica ainda usam o trema. Eu mesmo, por usar hoje os processadores de textos ainda não adaptados à reforma ainda o uso, pois ele é ainda considerado correto por mais algum tempo. Então, hoje eu estou certo e estou errado, ao mesmo tempo, pelo hiato natural entre a forma como nos comunicamos e a que é oficial. O que fazer ao dar uma aula, ou escrever um livro? Dizer aos meus leitores que usem o trema sempre, que o usem se quiserem (como é o caso hoje), que só o usem daqui a três anos, que nunca o usem, ou, o que é pior, que não escrevam de jeito nenhum até que os luminares da língua portuguesa decidam o que fazer?

Para mim a resposta é só uma: Dai ao professor o que é do professor e dai ao comunicador (que somos todos nós) o que é do comunicador. O professor estuda a norma culta que é aquela aprovada pelos lingüistas (vejam o processador colocou o trema e o deixarei aí como exemplo) e até de forma legal. Esta é a língua que deve ser escrita por aqueles que querem escrever corretamente o português ou brasileiro. Mas ela não deve ser empecilho para aqueles que não tiveram a chance, porque não puderam ou porque não quiseram (como o Lula) de escrevê-la ou falá-la dentro da norma culta. Isto é coisa de Rui Barbosa. O ruibarbosismo tanto em coisa de pátria como de língua deveria ser desprezado nos dias atuais. Hoje se escreve como se pode e se ama a pátria global.

Dentro deste prisma, a professora que escreveu o livro tenha suas razões e elas são expostas no vídeo. O livro visa controlar ou mesmo coibir o preconceito lingüístico da mesma forma que outros livros tentam fazê-lo com outros tipos de preconceito. Para isto ela cunhou dois adjetivos para substituir outros dois: “certo” e “errado”. Foram “adequado” e “inadequado”. Nem sempre o que é adequado é certo e vice-versa. E “vice-versa” também para seus antônimos. Por exemplo, como se diz no vídeo que escrever ou falar “os livro” é errado, mas em certas horas é a única coisa adequada para ser dita ou escrita, as vezes, simplesmente, porque a pessoa não sabe dizer de outra forma. Eu acho ridículo chamar alguém de “afro-descendente”, ao invés de chamar de negro, quando isto não envolve entre as partes nenhum racismo explícito. Acho até que é uma forma velada de racismo, mas não é certo nem errado, talvez seja adequado ou não.

Seria uma indelicadeza sem tamanho, ao ver o Lula dizer “menas laranjas”, mandá-lo imediatamente fazer um curso de português. Óbvio, que ele falou errado, mas para ele foi extremamente adequado. Foi falando assim que chegou a presidente da república e hoje está rico, dando palestras pelo mundo afora. Tivesse ele encontrado alguém, cujo preconceito lingüístico estivesse à flor da pele, talvez, feliz ou infelizmente, não tivéssemos tido um operário na presidência. Outra coisa é ele se aproveitar politicamente do seu “falar errado” para se promover. Isto é apedeutismo em alto grau. Quando eu achei que isto aconteceu rompi com o “cara”, politicamente.

Eu não espero voltar a ser professor de português. Nisto eu já fiz a minha parte. Se voltasse, pelas necessidades da vida, não teria nenhum restrição de indicar o livro da professora Heloísa para os meus alunos, dizendo ao que ele se propõe. Se alguém quisesse comprá-lo que o fizesse. Mas, jamais apoiaria que isto fosse feito pelo MEC, que pela suas funções deveria zelar pelas normas cultas da língua. Sua função, caso os funcionários de plantão consigam força para fazê-lo seria incentivar uma Reforma Ortográfica que transformasse o quanto antes o Português na Língua Brasileira, que eu adoto aqui, de forma “incorreta”, mas inteiramente “adequada”.

Como forma de terminar esta Querela do Ensino de Português, como a Lucinha Peixoto chamou o video abaixo, e concordando com o Rui Barbosa, quando diz que: “A degeneração de um povo, de uma nação ou raça, começa pelo desvirtuamento da própria língua”, eu conclamo que não deixemos que isto ocorra com nossa Língua Brasileira, e dedico a ela este simples soneto, escrito em linguagem culta, mas homenageando um conterrâneo que sempre teve muito apreço pelo seu inadequado e incorreto uso.


Língua Brasileira


Última flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela...


Amo-te assim, desconhecida e obscura.

Tuba de alto clangor, lira singela,

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!


Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,


em que da voz materna ouvi: "meu filho!",

E em que Lula galgou seu alto cargo,

O gênio sem ventura e o amor sem brilho!


Zezinho de Caetés

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(*) Antes que alguém me aporrinhe, esclareço que o soneto prafraseado é de Olavo Bilac e chama-se Língua Portuguesa. (A arte na foto de Camões é do Jameson Pinheiro).

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