quinta-feira, 30 de junho de 2011

Democracia representativa e o jogo de pôquer



Hoje fiquei estarrecido com as notícias que me chegam do planalto central do país e mais especificamente do Palácio do Planalto. Elas me dizem que Dilma Rousseff agora joga pôquer, numa mesa em que se sentam também os líderes governistas na Câmara, representado pelo Henrique Alves do PMDB, dirigentes do BNDES, e outros menos interessados no jogo, ou talvez, blefando que não estão.

No jogo estão envolvidos R$ 4 bilhões, que representam o os restos a pagar de um jogo em que ainda estava sentado à mesa o meu conterrâneo Luís Inácio. Quando Dilma pegou nas cartas, repassadas a ela por Lula e viu que ele não tinha nem pelo menos um par de valetes, ficou aperreada, mas começou a blefar, antes da posse dizendo que agora tinha nas mãos um jogo que valia mais do que um “Flash”, e talvez fosse um “Four”, por faltava ainda abrir uma carta.

Diante deste jogo tão bom, os parceiros começaram a apostar em seu cacife, e ela prometia que era só pagarem prá ver, que ela mostraria um país sem miséria, e que além disto, todos que não pagassem para ver seria recompensados, com algumas fichas durante o jogo. Com a oposição fora da mesa e fora da sala do jogo. Tudo parecia às mil maravilhas. Estava tudo dominado, como se diz.

O que ele não sabia era que o jogo, não era um pôquer comum. Tinha suas peculiaridades democráticas de um sistema representativo, onde os representantes do povo no jogo, estão mais interessados, nas fichas que eles ganham, do que em que elas serão transformadas para seus representantes.

Neste jogo, no momento estão envolvidos os seguintes lances. A Dilma, por considerar que seu cacife não é tão alto assim, e que suas promessas poderiam prejudicar o país com um todo, tenta jogar pesado dizendo que não vai entregar o R$ 4 bilhões de fichas aos seus parceiros de jogo. Seus parceiros dizem que se não ganhares estas fichas, vão pagar para ver e não votarão mais em coisas de interesse do governo. Dilma retruca e diz que isto é chantagem, ou blefe, numa linguagem mais apropriada e diz: “Se acham que vão me dobrar na base da chantagem, estão enganados”.

E lá vai ela com sua inexperiência política a dá murro em ponta de faca, ou melhor, mostrar que não está blefando quando sorrir amarelo. Os parceiros não acreditam. Penso que só vão acreditar quando elas chamarem o Lula. Aquilo sim, sabia blefar como ninguém, e o fez durante 8 anos. Chegou até a dizer que o mensalão nunca existiu, sem nem mesmo piscar. E os parceiros de jogos acreditaram. Vamos ver em que dá.

Mas o imbróglio está formado no jogo do poder, que é tão bem descrito pelo Blog do Alon num texto chamado de “Não era prá está assim” e que melhor do que eu descreve este jogo. Leiam:

“O truncamento do processo legislativo priva o governo da boa digestão das ideias. Por geniais que sejam os circundantes do poder, eles não serão jamais capazes de expressar a complexidade social

Governar sem precisar dar satisfação é — ou deve ser — uma delícia. Assinar leis sem ter que gastar fosfato sobre como aprová-las no Congresso, também. Substituir o debate na sociedade pelas disputas intramuros no governo, ou entre os fiéis, então, nem se fala.

Aparentemente, a presidente Dilma Rousseff acreditou que a base amplíssima a protegeria das disputas políticas no parlamento. Circunstância que apenas acentuou certo traço beligerante da personalidade política do governo de sua excelência.

Com vantagem maciça no Legislativo, tratar-se-ia apenas de governar com os dela, e de esperar pelo cumprimento das ordens palacianas. Nascidas, naturalmente, da convicção de estar fazendo o certo pelo povo e pelo país.

A oposição estaria constrangida pela massacrante aritmética e pela dependência dos governadores tucanos e democratas ao dinheiro federal. Já a base iria contentar-se com o tratamento orçamentário diferenciado. Farinha pouca ou muita, meu pirão primeiro.

E a implementação desse projeto, na prática? Vai mais ou menos. Já tratei aqui de como a oposição social acaba se manifestando no Congresso, nem que precise nascer da própria base governista. O Código Florestal ficará como exemplo didático.

Mas há outra variável. As dificuldades políticas do governo não nascem apenas da inevitabilidade de as divisões penetrarem as Casas, especialmente a do povo. Surgem também da falta de mecanismos de digestão dos problemas.

O processo democrático tem esta vantagem. Quando uma ideia é colocada para moer na sociedade, e no Parlamento, as enzimas ajudam a preparar o material para a necessária absorção. Separam, por exemplo, os nutrientes dos dejetos.

O truncamento do processo legislativo priva o governo da boa digestão das ideias. Por geniais que sejam os circundantes do poder, eles não serão jamais capazes de expressar a complexidade social.

Inclusive pela tendência natural de concordar com o poderoso, já que manda quem pode e obedece quem tem juízo. Os yes men e as yes women proliferam nos palácios como praga.

Apesar de, pasmem!, o poder estar sujeito a erros.

O governo diz que as resistências ao mecanismo diferenciado das licitações na obras da Copa surgiram porque as pessoas não entenderam direito as óbvias vantagens das alterações.

Se o governo tivesse colocado a coisa para debate com tempo suficiente, e num ambiente de normalidade política, o processo de sedimentação se encarregaria dos devidos esclarecimentos e das naturais correções.

Com uma vantagem adicional. Cada negociação no mérito embute a possibilidade de economizar recursos orçamentários necessários para garantir a efetividade do rolo compressor.

Mas não é da natureza desta administração. Já se ensaia o próximo conflito, na reforma tributária. Os governadores desconfiam que serão servidos como prato principal do jantar para o qual são convidados pela presidente.

A federação, tadinha, balança perigosamente à beira do beleléu.

Aqui ameaça reproduzir-se o impasse dos royalties do pré-sal. Onde o governo se acertou com os estados produtores e achou que bastava acionar a ignição da máquina.

O resultado é Dilma estar sob ameaça de derrubada do veto, o último recurso do antecessor diante da derrota.

Dilma está pendurada no favor que lhe faz o presidente do Senado de não incluir o assunto na pauta. Não era para estar assim.”

Só para terminar, eu diria que se a Dilma conseguir travar a sanha por cargos e verbas que assola este país, vindas diretamente do seus aliados, ainda pode transformar o jogo em favor do Brasil como um todo. O problema é que eu duvido muito que ela tenha cacife prá isto. E quando li que o BNDES está emprestando R$ 4 bilhões ao grupo Pão de Açúcar para comprar o Carrefour, eu só posso dizer: lá se vão as nossas fichas.

Zezinho de Caetés

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