sexta-feira, 10 de junho de 2011

O FILHO DO SACRISTÃO


Senti uma grande tristeza quando tomei conhecimento do falecimento do amigo de infância, Alberto Magno do Carmo, o Beto filho do sacristão da Matriz da Sagrada Família, nos idos tempos do século passado, por volta dos anos 50, através da À GAZETA edição nº 286, com a foto entre os seus amigos infantis, Pedro Genivaldo Alberto, Demar, João Nelson, Silvino Nunes, Balinho, Zito de Vigário, Jodeval, Luiz Clério e o chefe João Batista.

Morávamos na mesma rua, a Rua do Caborje quase nosso vizinho. Era uma amizade de garotos a brincar pelas ruas da nossa cidade de Bom Conselho.

Com o seu pai, Seu Pedro, sacristão da Matriz da Sagrada Familia, tinha sempre acesso aos ritos litúrgicos que aconteciam. Através do seu pai, comecei a “ajudar na missa” que o Padre Alfredo celebrava, com os ensinamentos do seu Pedro e Gabriel Vieira Belo. Ensaiávamos as respostas que tínhamos que proferir quando o padre celebrava, em latim. Era uma decoreba, pois nenhum garoto tinha condições de saber o “latim”. Eram meses e meses de estudos e depois tinha uma sabatina e a “prova real” na primeira missa sob o olhar dos dois professores ali em pé observando, deixando-nos nervosos. Tínhamos em comum a vivenciar a igreja tanto nas festas, como na sacristia. Por varias vezes à tarde íamos a Matriz, entrando, com ajuda do Beto, pela casa do Padre Alfredo, indo dar na entrada da sacristia onde o seu pai, cortava com pequeno aparelho, as partículas que seriam consumidas na igreja e, as arestas eram comida por nós, meninos. Era uma festa. Saímos correndo por dentro da igreja, por entre os bancos de madeiras com pés de ferro e em seguida subindo a escadaria que daria para torre onde estavam os sinos que chamavam os fieis para as missas, com a primeira chamada, logo em seguida a segunda e por fim a terceira com início da celebração, ou avisando que alguém morria através dos badalos fúnebres e dali do alto contemplava a beleza da nossa terra. Nunca íamos à torre do relógio, era perigoso.

Conheci e freqüentei muito a casa onde o Beto morava. Ali residia, o Seu Pedro, Dona Gerusa e algumas filhas, da qual me lembro da Aleide, magrinha, e cabelos escorridos, andando devagar por dentro de casa, sempre agasalhada com um blusão e um cachecol enrolado no pescoço, com dificuldade de brincar com as outras meninas, pois era acometida de uma “asma crônica” que a asfixiava e somente vivia puxando o “ar”, como eu que também era asmático. As brincadeiras no fim da tarde, sob o sol morno, já se escondendo, e o vento brando amenizando o calor do dia, jogávamos na época academia, com risco na calçada feita com carvão, e com uma casca de banana marcava arremessando no quadrado e ia pulando em um pé só. Brincamos de pular corda, onde o malabarismo dos meninos era demonstrado às meninas que ficavam empolgadas com aqueles pulos rápidos e precisos. O jogo de “chimbre” no terreiro de Dona Luiza, a rendeira. Naquele mesmo local, jogávamos pião, e por trás da minha casa soltava “papagaio” muitos se emaranhando no pé de eucalipto que existia em nosso quintal. Era sempre uma festa a nossa vida. Vida de criança do interior.

Íamos quase que diariamente ao sitio denominado “A BICA”, onde apanhávamos frutas, a manga rosa, espada e manguito, trazendo em uma carroça feita de caixa de sabão bem-te-vi. Escolhia algumas e levava para sua casa. À tarde, sempre na Praça Pedro II, com as suas palmeiras imperiais, ao sabor do vento da tarde, sentava no banco da praça para trocar figurinhas compradas na barraca de Seu Belon, da “Vinte Mil Léguas Submarina”, de “Marcelino Pão e Vinho” e outras, pregando logo a chegada a casa no álbum.

Inventamos, certa vez de colocarmos na feira, principalmente em frente à Loja Princesa do Norte, um caixão de sabão, onde vendíamos sabão em barra ou meia barra, touca de anil, fósforo marca “Olho”, papel de seda para cigarro Guarany, sob um forte sol ali expúnhamos os produtos e no final da feira dividíamos o apurado, o que dava para ir à matinê no cinema Rex, aos domingos a tarde acompanhar os seriados que ali exibia ”A Escrava de Jô”, “Super Homem” o “Zorro”, “Capitão Marvel”. Era um tempo bom que as crianças aproveitavam.

Quando deixei Bom Conselho, para residir em Garanhuns em 1957, descia a Rua do Caborje em uma manhã fria e chuvosa, cansado pela crise da asma, choramingando, para apanhar a “sopa” de Zé do Óleo, em frente do bangalô de Luisinha Correntão, deparei-me quando descia o Beto, indo para a Matriz ajudar na celebração da Missa, com o seu Pai o Pedro Sacristão. Abanamos a mão, e com a intenção de um breve “adeus”. Senti as lagrima nos olhos, enrolado em capote cinza abrigando da chuva fina. Entrei na “sopa” e sentei-me na janela, vendo tudo se afastar de minha vida, enquanto a “sopa” seguia o seu destino.

Muito tempo depois, encontro o Beto, já em Recife. Demos as mãos e com um sorriso e palavras lembramos-nos dos velhos tempos de Bom Conselho.

Como vai seu pai Antonio Zuza e Dona Nedi? Está tudo bem!

E, Dodora?

Ela mora no Rio de Janeiro a bocado de tempo, respondi.

E, teus pais como vão eles? O meu pai faleceu e minha mãe mora em Maranguape Zero.

Sempre o via, pois ele trabalhava na mesma rua que eu trabalhava, na Rua da Palma. Trabalhava em uma loja onde vendia peças e enrolamentos para automóveis. Disse-me ele, que morava em Maranguape Zero, em Paulista. Outras vezes nos encontramos, e depois desaparecemos com a mudança de endereço do trabalho. E nunca mais soube do seu paradeiro apesar de procurá-lo para bater um papo de conterrâneo relembrando os belos momentos.

Já não posso mais o encontrar, apenas dizer a este amigo de infância “DESCANSE EM PAZ”

José Antonio Taveira Belo / Zetinho

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