quinta-feira, 2 de junho de 2011

O preconceito linguístico e o Auto da Compadecida



Hoje os assuntos, de que tenho vez por outra tratado aqui, estão todos entrelaçados e presentes. É kit gay, é PT, é enriquecimento ilícito do Palocci, ferrugem no poste, volta do apedeuta e tudo mais. É assunto que não acaba mais. Hoje quando sentamos para escrever o problema não é falta, mas sim, excesso de assunto.

Escolhi um que já vem incomodando há algum tempo, desde que o Zezinho de Caetés começou a, sobre ele, escrever, e não tem sido muito claro para mim. É sobre a polêmica do uso de nossa língua culta ou outros tipos de línguas, que são os dialetos orais usados por nossas infinitas tribos, com todos os propósitos, sejam eles o de comunicar ou confundir. Eu penso que ele, o Zezinho, está dando “uma no cravo outra na ferradura”, porque sempre defendeu uma ideia de que o português se acabasse dando lugar ao brasileiro. E talvez, seja por isso que ele aceitou de bom grado a mais recente reforma ortográfica, que visa mais a compatibilização dos vários “portugueses” existentes (Portugual, Angola, Moçambique, etc) para fins comerciais.

Até aí nada contra a reforma e nem contra o Zezinho que talvez seja o único que já usa na linguagem escrita o “abrasileiramento” da língua portuguesa. Isto aqui no Brasil, pois em Portugal e mesmo em outros países da comunidade ibérica, isto já é feito pela Rede Globo. O problema é que apareceu aí um livro de uma senhora professora do MEC, que eu não li, e acho até que muito poucos leram, mas segundo dizem, recomenda aos alunos que eles podem se expressar como eles sabem, sem seguir a norma culta. Ou seja, acaba com a profissão de professor da língua portuguesa. Pois, pensando bem, o que restaria para ensinar desta língua, se não tivermos um padrão que não seja eterno pois é chama, mas que seja infinito enquanto dure?

Suponha o Lula voltando aos bancos escolares, muito contrariado, pois já foi presidente e não precisa disto, vá logo dizendo ao professor:

- Professor, vá com menas intensidade em seu ensino, pois o que estou falando é a língua do povo, e o livro da professora Heloisa Ramos , Por Uma Vida Melhor, diz que eu posso falar assim sem ser errado. Isto não existe. Existe apenas algo adequado e não adequado. E o MEC, sim, aquele do Haddad não ia gastar 700 mil pau com um livro que não falasse a verdade. E eu estou sendo adequado. Se não fosse isso como teria me elegido presidente? Vai pegar teus peixe noutro lugar, cara!

O que o professor de português poderia dizer se não tivéssemos uma referência para julgar o Lula um apedeuta? A gramática é que nos dá esta referência. É a norma culta pela qual o professor vai ensinar, sem a dor de consciência de que seu aluno, um dia, não se dê mal na vida só porque achou que o Lula nunca aprendeu a falar corretamente e se deu bem.

O professor do Lula teria a obrigação de dizer, com todo amor e carinho que todos os professores devem ter por seus alunos, que o correto é “menos” e não “menas” , fazer os plurais corretamente e quando for pescar ele vai pegar muitos peixes, não ferindo tanto a concordância, ele jamais ficará com vergonha de sua mãe ter nascido analfabeta e falar errado porque não tinha ido à escola, mas esforçou-se muito para que filho estudasse, embora ele não o tenha feito, pois queria ser presidente da república. Se a D. Lindu tivesse sido uma mulher que tivesse tido uma escola, tenho certeza, orientaria o Lula em suas falas e até ralhando com ele.

O livro da professora Heloisa Ramos, do qual falamos acima, para dar razão ao presidente de plantão e ficar bem com os homens do MEC, e ganhar o seu dinheiro diz que o “fala errado” não deve se preocupar com isto, embora ele possa ser vítima de “preconceito linguístico “ por parte daqueles que concordam que só deve haver a norma culta para se usar a língua. Ou seja, quando Lula chegasse com menas coisas prá e menas coisas prá cá, os preconceituosos linguarudos iriam dizer: Olha o apedeuta aí, gente. Isto seria bem possível, mas, não feriria o Lula de forma nenhuma porque ele sempre usou a língua de forma errada por que quis e isto foi bom prá sua carreira política. Se isto fosse preconceito linguístico , ele iria adorar. Isto é até carinhoso. Imagine se eu, com de vez em quando faço, muito raramente agora, chamasse o meu marido de meu “nêgo” e ele me processasse pela Lei Afonso Arinos? Talvez, quando ele está com um pouco de raiva de mim, isto seja possível. Eu não estaria nem aí se ele me chamasse de “neguinha”. Talvez eu o levasse às barras do tribunal se ele me chamasse de “gordinha” ou “fofinha”, isto sim, seria imperdoável.

Então se isto não é preconceito linguístico , o que será este monstro? Para mim é um monstro, e basta ser um preconceito para sê-lo. Não vamos fundo na filosofia, basta citar o padrão dado por um dicionário adequado como Houaiss:

Preconceito

1 - Qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico; idéia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão

2 - Atitude, sentimento ou parecer insensato, especialmente de natureza hostil, assumido em consequência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância

O significado de preconceito de número 1 pode ser favorável ou desfavorável. Já o de número 2 sempre é prejudicial a alguém e é terrível, chocante e “criminoso”. O professor, a mãe, o amigo, a família que corrige uma pessoa quanto ao falar, e que pela sua intimidade sabe que isto deve ser feito, está apenas cumprindo uma obrigação formal, e que “se bem não fizer, mal não faz”. Mesmo assim, devemos estar sempre atentos para que nossas boas intenções não sejam mais algumas que irão se consumir no fogo do inferno.

O preconceito de número 2 tem sempre por trás o propósito de fazer o mal em suas várias facetas. Se o meu marido um dia me chamasse de “neguinha” safada, eu talvez olhasse na expressão do seu rosto, e se estivesse séria, eu com os devidos pedidos de perdão antecipados aos meus santos e à minha Igreja, usaria minhas mãos para um mau propósito. Já sei que nunca farei isto porque lá em casa criamos nossos filhos na língua culta, e corrigiria imediatamente, se alguma dia minha filha falasse algo “menas” do que na norma culta ou na língua adequada para o seu contexto.

Mas, prenconceito linguístico mesmo, e da pior espécie, é aquele que usa os erros cometidos, para argumentar atacando ou defendendo alguém ou alguma ideia que não tem nada a ver com o falar correto. Por exemplo, esta semana, lendo um Blog muito bom, inclusive porque o autor é um católico praticante, como eu, o do Reinaldo Azevedo, da Veja, ele discordava do Jean Willys, aquele que ganhou o BBB e é gay, começou criticando um argumento do Jean, já querendo desrespeitá-lo porque ele usou a seguinte frase: “Nenhum de vocês conheceram”. Sim, o Jean pisou feio da bola no português e eu até concordo que sua mãe, o seu amigo ou outros chamem sua atenção disto, mas, o Reinaldo Azevedo não poderia ter usado este fato para ganhar a discussão em outro campo. Isto foi um tremendo de um “preconceito linguístico”. Ou seja, se usar um erro de português para denegrir o adversário em outro argumento. A não ser que , como o Lula, o Jean estivesse usando os seus erros para ganhar coisas de outra área, se o fosse, assim como o Lula eu daria toda razão ao Reinaldo para chamá-lo de “apedeuta homoafetivo”.

Um caso mais próximo de nós, de Bom Conselho, foi o “preconceito linguístico” usado por uma bel letrista no Mural do SBC, que ao se ver criticada, por alguém não conhecer um conjunto musical do qual ela faz parte, partiu para citar erros de concordância dentro de um Mural de Recados. Fui até acusado pelo Beto Guerra, que passei a conhecer por Beto Paz, ao questionar ter colocado meu bedelho no meio da discussão entre os dois contendores. Eu já disse que não me arrependo do meu gesto. Pois sou contra o preconceito de número 2 até quando provém dos homens que fazem minha Santa Igreja Católica.

Minhas filhas e filhos têm um linguajar peculiar para o que vamos fazer no banheiro. É o número 1 ou número 2. Aqui onde moro por obra e graça do Conde Eduardo e sua COMPESA voadora, de vez em quando falta água. Quando isto acontece, todo mundo prende o número 2, e só se faz o número 1. O cheiro do número 1 é suportável, mas o do número 2 é insuportável. O mesmo para o prenconceito linguístico.

Pelo título que dei a este texto está faltando alguma coisa. O que diabo eu pensei sobre o Auto da Compadecida, para colocar aqui nesta discussão? Eu sei que a obra do Ariano Suassuna, hoje, além do teatro, do cinema da TV e doutros meios, é um brado contra o preconceito, mesmo até contra o preconceito linguístico. Mesmo quando o João Grilo, o amarelo magro e inteligente coloca dinheiro no fiofó do gato, alguém politicamente correto pertencente à Sociedade Protetora do Animais poderia processá-lo por estar orientando as crianças e defenestrar algum gatinho indefeso, fazendo-o de cofrinho. Até agora, que eu saiba ninguém o fez. Mas o ápice da luta contra o preconceito, o autor pratica quando coloca um Jesus moreninho para receber o João Grillo no céu. Eu estou com preguiça de ir pesquisar quem veio antes, se a Lei Afonso Arinos e seus penduricalhos ou o Auto da Compadecida ( e não me venham logo me tachar de ignorante por não saber, pois hoje o mais fácil é saber, o difícil é entender). Entretanto, eu tenho certeza que no seu lançamento, algumas senhoras adeptas do teatro, devem ter torcido o nariz pela negritude de Jesus imposta por Ariano. A discordância com Ariano é um preconceito do tipo 1. Enquadrar o Ariano na Lei Afonso Arinos por ele ter escrito o texto é preconceito do tipo 2. E má fé mesmo é dizer que o seu pecado foi tão grande que ele foi condenado a apoiar o Arraes e seu neto, o Conde, até o fim de sua vida.

Eu adoro o Auto da Compadecida, embora tenha minhas restrições ao Conde Eduardo, por ele não está, segundo o Poeta, dando a mínima prá Bom Conselho.

Lucinha Peixoto

Nenhum comentário: